A recente operação militar dos Estados Unidos na Venezuela, que culminou na retirada do presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, de território venezuelano, levanta sérias preocupações entre especialistas em relações internacionais. A ação, que incluiu confrontos com forças de segurança e explosões na capital Caracas, é vista por analistas como uma afronta direta à soberania venezuelana e um potencial abalo para a ordem multilateral e a estabilidade na América Latina.
Segundo Bruno Lima Rocha, cientista político e professor de relações internacionais da Faculdade São Francisco de Assis (Unifin), a intervenção militar dos EUA configura uma violação do direito internacional. Ele argumenta que não existe base legal para que os EUA atuem como uma força policial global, especialmente sem delegação de poderes por parte de organismos como a ONU. “Mesmo que as acusações contra Nicolás Maduro fossem verdadeiras – o que, de fato não são –, a ONU ou o sistema de instituições internacionais não delegaram para os Estados Unidos poder para sequestrar, capturar ou intervir em um país soberano”, explicou Rocha, classificando a ação como um “sequestro” e uma “agressão imperialista pura e simples”.
As justificativas apresentadas pelo governo americano, que incluem a suposta ligação de Maduro a grupos narcoterroristas, foram rebatidas por Rocha, que as considera infundadas. O professor também alertou para a possibilidade de os EUA visarem o controle das vastas reservas petrolíferas venezuelanas, as maiores do mundo.
O pesquisador Gustavo Menon, docente na USP e UCB, destacou que outros países da região com recursos minerais de interesse para os EUA também podem se encontrar em situação de risco. Ele avalia que o Brasil, em particular, pode enfrentar maiores tensões caso adote políticas de monopólio estatal na exploração de minerais críticos, estabeleça acordos com Rússia e China nessa área ou utilize moedas distintas do dólar em transações internacionais. No entanto, Menon pondera que a legislação brasileira atual não aponta para tal cenário, permitindo a exploração estrangeira sob regulação nacional.
Menon descreve a posição do Brasil como “muito delicada” no atual contexto geopolítico, prevendo que o país manterá sua estratégia diplomática e de cooperação, alinhada à defesa dos direitos humanos e à resolução pacífica de conflitos. “O Brasil vê com muita preocupação essa intervenção armada direta em solo sul-americano”, afirmou, ressaltando que o Ministério das Relações Exteriores brasileiro sinaliza pela legitimidade da vice-presidente venezuelana, Delcy Rodrigues, como interina. Ele acrescenta que a ação americana “acaba quebrando a América do Sul como uma região de paz”, configurando uma violação de princípios do direito internacional e, possivelmente, de normas domésticas dos próprios EUA, uma vez que não houve aprovação congressiona para a incursão.
Ambos os especialistas concordam que as instituições multilaterais, criadas após a Segunda Guerra Mundial, saem abaladas deste episódio. “No fundo, estamos presenciando o colapso desse sistema multilateral. Essa institucionalidade simplesmente virou pó”, lamentou Menon. Rocha complementa, afirmando que Donald Trump “colocou na lata do lixo” instituições fundamentais do sistema internacional, demonstrando um “momento novo” no século 21 em que os EUA parecem desmantelar a ordem pós-guerra.
Os próximos passos dos Estados Unidos na região são motivo de atenção, especialmente considerando a importância estratégica do petróleo venezuelano e a crescente corrida geopolítica e geoeconômica. Menon sugere que a ação americana envia uma mensagem clara a Pequim e Moscou, reafirmando a influência histórica dos EUA na América Latina e a prevalência da “lei do mais forte”. Rocha expressa preocupação com a intervenção de uma superpotência em um país soberano latino-americano, alertando para ameaças de interferência militar direta, pressão financeira ou manipulação eleitoral em outros países da região.

