Analistas internacionais e especialistas em geopolítica apontam que o crescente interesse dos Estados Unidos na Groenlândia está intrinsecamente ligado à estratégia de conter a influência da China no Ártico. A disputa por rotas marítimas estratégicas, que se tornam mais acessíveis com o derretimento do gelo polar, é o principal motor dessa movimentação.
O Oceano Ártico, crucial para conectar a Ásia, a Europa e a América do Norte, apresenta um potencial logístico e comercial cada vez maior. Com o avanço das mudanças climáticas, espera-se que a redução das calotas polares nas próximas décadas torne as rotas marítimas da região significativamente mais econômicas.
Especialistas como o major-general português Agostinho Costa, com vasta experiência em segurança e geopolítica, explicam que os EUA, já dominantes em outras vias marítimas globais, veem a necessidade de expandir sua presença no Ártico. “Eles vivem mal com a ideia de, em um oceano tão importante como é o Ártico, ter uma presença residual”, afirmou Costa, destacando que o controle dessa área visa especificamente a dificultar o comércio chinês.
A China tem demonstrado uma postura cada vez mais assertiva na região. Desde 2018, o país asiático se autodenomina um “quase-ártico” e tem fortalecido sua cooperação com a Rússia para ampliar sua atuação no Ártico. O cientista político Ali Ramos, autor de estudos sobre a Ásia, corrobora essa visão, mencionando que a China busca alternativas para contornar os pontos de estrangulamento controlados pelos EUA, como os estreitos de Malaca e de Gibraltar.
Documentos recentes do Departamento de Defesa dos EUA, publicados em 2024, reforçam a importância estratégica do Ártico para Washington no cenário global. O relatório aponta a invasão da Ucrânia pela Rússia, a expansão da OTAN com a adesão de Finlândia e Suécia, a colaboração sino-russa e os impactos climáticos como fatores que impulsionam uma nova abordagem estratégica para a região.
A Rússia, com 54% do litoral ártico, possui uma posição geográfica vantajosa para influenciar as rotas marítimas. Especialistas alertam que, se a Rota Marítima do Norte se tornar um corredor comercial vital, o controle russo sobre ela poderá ser usado como ferramenta de alavancagem econômica e diplomática, expandindo sua influência regional.
Nesse contexto, a Groenlândia, um território semiautônomo da Dinamarca com uma população de 56 mil habitantes, torna-se um ponto nevrálgico. A ideia de sua anexação, que já foi cogitada em administrações passadas, como a de Donald Trump, que citou preocupações com a presença naval russa e chinesa na área, é vista por analistas como uma tentativa de garantir uma posição de destaque no Ártico e, consequentemente, limitar a projeção de poder de concorrentes globais.

