A conquista do voto feminino no Brasil, um marco fundamental para a cidadania das mulheres, enfrentou e ainda enfrenta resquícios de misoginia e discursos que tentam desqualificar a participação política feminina. Desde os primórdios da República, com parlamentares como Coelho e Campos e Serzedelo Corrêa expressando resistência em 1891, até manifestações contemporâneas de influenciadores questionando a capacidade eleitoral das mulheres, a batalha pela igualdade de gênero nas urnas se revela uma luta contínua.
Estudiosas do tema apontam que esses discursos machistas ressurgem como reações aos avanços da cidadania feminina. A lógica patriarcal e misógina, embora com linguagem adaptada, permanece a mesma, evidenciando que a obtenção de direitos não é espontânea, mas fruto de uma “luta permanente”, como afirma Fernanda Abreu, professora de direito. Ela ressalta que tais questionamentos, mesmo que pareçam absurdos e inconstitucionais sob a ótica do Artigo 14 da Constituição Federal de 1988, que garante o sufrágio universal sem distinção de sexo, ganham força “perturbadora” e se conectam a movimentos antifeministas internacionais.
Cibele Tenório, pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), contextualiza essa recorrência de ataques como um reflexo do “machismo estrutural” presente na sociedade brasileira. Ela destaca a “inteligência diferenciada” das sufragistas do século 20 que lutaram incansavelmente por esse direito. A pesquisadora alerta que, mesmo que não resultem em propostas de revogação de direitos, essas ofensivas podem gerar “incômodo ou desestímulo à participação”, o que é extremamente perigoso, especialmente em um cenário onde as mulheres já são maioria do eleitorado (mais de 53% em 2026).
A história registra que a primeira Constituição Republicana, em 1891, rejeitou o sufrágio feminino sob o argumento da incapacidade intelectual da mulher para a vida pública. Sufragistas como Leolinda Daltro, fundadora do Partido Republicano Feminino, enfrentaram negação de candidaturas e forte ridicularização na imprensa, sendo associadas a “mulheres-homens” por desafiarem o papel social imposto. O Código Eleitoral de 1932 chegou a exigir autorização do marido para o voto feminino, uma cláusula removida apenas após intensa pressão.
O avanço legislativo se consolida com o Decreto 21.076 de 1932, que garantiu o voto feminino e secreto, seguido pela Constituição de 1934. O Código Eleitoral de 1946 tornou o voto obrigatório para mulheres alfabetizadas, e a Constituição de 1988 eliminou esse requisito. No entanto, a luta pela igualdade plena continua. Pesquisadoras como Marlise Matos, da UFMG, defendem a reafirmação do compromisso do Estado com os direitos políticos das mulheres e o reforço de campanhas informativas.
A educação formal, a conscientização sobre a importância da participação política e o rompimento com o apagamento histórico das sufragistas são caminhos essenciais, segundo Ana Prestes e Hildete Pereira. Elas ressaltam que a dependência financeira e o machismo estrutural no mercado de trabalho ainda criam obstáculos. A mensagem das pioneiras, como Bertha Lutz e suas articulações globais, é clara: “é preciso participar e não desistir”, reforçando a necessidade de persistência diante das resistências que, como demonstra a história, ainda ecoam.

