O governo do presidente Javier Milei recuou na intenção de ampliar a venda de terras argentinas para investidores estrangeiros. O recuo ocorreu após uma forte mobilização social e política que reuniu governadores, artistas e até mesmo jogadores da seleção nacional. A memória da Guerra das Malvinas, conflito ocorrido na década de 1980 entre Argentina e Reino Unido pelo controle do arquipélago, emergiu como um catalisador contra a medida.
A proposta, apelidada de “estrangeirização das terras argentinas”, enfrentou resistência generalizada. Governadores de diferentes espectros políticos, celebridades como Lali Espósito, Milo J e Nicki Nicole, e o zagueiro da seleção Lisandro Martínez manifestaram-se contra o projeto. A participação de figuras públicas, muitas vezes distantes do debate político, demonstrou a sensibilidade do tema para a sociedade argentina.
Diante da pressão e da falta de apoio no Senado, o governo retirou o projeto de votação. No entanto, manteve a análise de outra proposta controversa: a que permite a venda de áreas protegidas que foram afetadas por incêndios florestais. O texto original sobre a venda de terras previa o fim de qualquer limite para a aquisição por estrangeiros, mas o texto que seria votado estabelecia um aumento do limite de 15% para 25% das terras de cada província.
A tentativa de flexibilizar a venda de terras não é nova. Logo após assumir o poder em dezembro de 2023, Milei tentou alterar a legislação por decreto, mas a medida foi suspensa pelo Poder Judiciário. A frase “as Malvinas são argentinas”, exibida pela seleção em uma semifinal contra a Inglaterra, ganhou destaque e foi associada à mobilização, servindo como um poderoso símbolo contra a venda de território nacional.
Especialistas apontam que a combinação da memória histórica da guerra com a atual mobilização social criou uma forte pressão sobre o Senado. O cientista político Leandro Gabiati destacou a formação de uma “grande maioria politicamente transversal” que pressionou os senadores. A oposição de governadores de províncias, que se sentiram prejudicados pela proposta, também foi crucial para o recuo governamental, federalizando a discussão.
O projeto sobre a venda de terras faz parte de um pacote legislativo mais amplo do governo Milei, que inclui medidas como a aceleração de despejos, dificultação de expropriações estatais e a redução de restrições para a venda de áreas protegidas após incêndios. Críticos alertam que essa última medida pode incentivar incêndios criminosos para facilitar empreendimentos imobiliários em áreas ambientalmente sensíveis, revertendo proteções estabelecidas em lei desde 2020.

