Um crescimento expressivo de mais de cinco vezes nas candidaturas de pessoas que se declaram autistas foi observado entre as eleições gerais de 2022 e as projeções para 2026. O número de registros saltou de apenas 13 para 70, indicando uma maior representatividade no cenário político.
Dentre os 70 candidatos, 39 concorrem a vagas de deputado estadual, 22 buscam uma cadeira na Câmara Federal, cinco pleiteiam a Câmara Legislativa do Distrito Federal, três almejam o cargo de vice-governador e um se candidata a primeiro suplente. Esses dados, compilados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), contrastam com a tendência geral de diminuição nas candidaturas, que caíram de 29.262 em 2022 para 20.829 neste ano, um número ainda sujeito a atualizações.
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição neurológica que afeta a comunicação e as interações sociais. Segundo o Ministério da Saúde, o TEA se manifesta de maneiras diversas, com diferentes níveis de suporte necessários para cada indivíduo. Pessoas com TEA, especialmente aquelas com suporte adequado, possuem plenas capacidades para trabalhar, estudar e exercer sua cidadania ativamente.
No contexto mais amplo das deficiências, 524 candidatos declararam possuir algum tipo de deficiência à Justiça Eleitoral, incluindo deficiências físicas, visuais, auditivas e outras, como o autismo. Estes candidatos disputarão a preferência de aproximadamente 1,97 milhão de eleitores com deficiência, um aumento de 42% em relação a 2022.
Simone Alli Chair, presidenta da Associação Vozes Atípicas (AVA), atribui o aumento das candidaturas à crescente visibilidade social do segmento. Ela ressalta que o avanço científico tem permitido diagnósticos mais precisos, levando a uma maior percepção da população autista, e não necessariamente a um aumento real em sua incidência. Chair também alerta para o risco de que o interesse político em torno do tema seja apenas uma estratégia para atrair votos, sem um compromisso genuíno com as causas da comunidade autista.
“Muitos candidatos não estão interessados em realmente nos ajudar, mas sim em arregimentar eleitores”, afirma Chair, destacando que propostas muitas vezes priorizam a quantidade em detrimento da qualidade e das necessidades específicas da comunidade, como a exigência de profissionais qualificados e atendimento continuado.
O cientista político João Francisco Meira explica que o crescimento das candidaturas voltadas à neurodiversidade e aos direitos das pessoas com deficiência se alinha a uma estratégia de segmentação e diferenciação no eleitorado. Ele aponta que, em eleições proporcionais, os candidatos buscam nichos para se destacar em meio a um grande número de concorrentes, atraindo eleitores que podem não se identificar com as pautas tradicionais dos partidos.
Meira conclui que, à medida que certos temas ganham relevância, eles passam a ser incorporados à agenda política, atraindo tanto candidatos quanto eleitores. Essa dinâmica permite que preocupações específicas, que antes poderiam ser demograficamente menos densas, recebam um olhar diferenciado e se tornem fatores importantes nas estratégias de campanha.

