Às vésperas do primeiro turno das Eleições de 2026, a definição do voto ainda é um desafio para muitos eleitores. A complexidade da escolha, agravada por discussões que ofuscaram o debate de propostas, como o caso Master e a crise no Supremo Tribunal Federal (STF), torna ainda mais crucial um processo de decisão bem fundamentado.
Especialistas consultados pela Agência Brasil oferecem um roteiro para auxiliar eleitores a fazerem escolhas mais criteriosas, alinhadas aos seus interesses e visões de mundo, além de alertarem para armadilhas como os “puxadores de voto” e propostas genéricas.
O primeiro passo para um voto responsável é o autoconhecimento. Questionamentos sobre a própria identidade social e econômica, ideologias e prioridades públicas são essenciais. Como aponta João Feres Júnior, doutor em Ciência Política pela IESP UERJ, é fundamental que o eleitor compreenda seus próprios interesses políticos e econômicos, pois nem sempre estes convergem com os de outros grupos. A falta de clareza sobre essas prioridades, somada à dificuldade de acesso a informações de qualidade, especialmente sobre práticas políticas em detrimento de escândalos, pode comprometer a escolha.
Compreender o papel e as atribuições de cada cargo eletivo é outro ponto vital. Débora Messemberg, socióloga e professora da Universidade de Brasília (UnB), ressalta que muitos eleitores desconhecem as competências específicas de legisladores, como deputados e senadores. Saber que esses representantes atuam na aprovação de leis e na fiscalização do Executivo, e não na execução direta de obras, por exemplo, ajuda a evitar frustrações e a identificar falsas promessas. O eleitor deve se informar sobre o que compete ao Presidente da República, Governadores, Deputados e Senadores para uma avaliação mais precisa.
A análise das ações passadas e do histórico dos candidatos é mais valiosa do que discursos. Francisco Uribam Xavier de Holanda, professor de Ciência Política da Universidade Federal do Ceará (UFC), sugere avaliar o currículo, o financiamento das campanhas e os apoios políticos. Propostas genéricas devem ser vistas com cautela. A verificação do histórico de votações e atuação de um político, especialmente se já ocupou cargo, pode revelar incoerências. Informações detalhadas sobre propostas, declarações de bens e doadores de campanha estão disponíveis no sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O alinhamento partidário também merece atenção. Naiara Sandi de Almeida Alcantara, cientista política da Universidade Federal do Pará (UFPA), explica que, apesar de nem todos os partidos possuírem linhas ideológicas claras, a disciplina partidária é esperada. O eleitor deve analisar como o partido tem votado, quais pautas historicamente apoia, sua consistência ideológica e suas alianças. Um candidato pode apresentar um discurso individual, mas, ao ser eleito, alinhar-se à diretriz partidária.
Um fenômeno a ser observado são os “puxadores de voto”. Rodrigo Stumpf González, cientista político da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica que, no sistema proporcional, candidatos com alta votação podem eleger outros membros menos votados do mesmo partido. É importante que o eleitor conheça a lista completa de candidatos de um partido e não se deixe influenciar apenas por uma figura de destaque, lembrando que o número do candidato também identifica o partido.
No dia da votação, em 4 de outubro, os eleitores podem levar uma anotação com os nomes e números dos candidatos para consulta na cabine. O uso de celulares e equipamentos de gravação é proibido para garantir o sigilo do voto. Manifestações individuais e silenciosas de apoio são permitidas, mas aglomerações, aliciamento ou tentativas de influenciar outros eleitores são proibidas. Eleitores têm direito a ausência justificada do trabalho para votar, e pessoas com mais de 80 anos, com deficiência ou mobilidade reduzida possuem prioridades e facilidades no dia da eleição.

