Um ano após o Brasil ter deixado o Mapa da Fome, marco que indica que menos de 2,5% da população sofre com risco de subnutrição ou acesso insuficiente a alimentos, o país celebra a conquista, mas ainda enfrenta o desafio de garantir segurança alimentar para todos. Atualmente, cerca de 6,5 milhões de brasileiros permanecem em situação de insegurança alimentar grave.
Especialistas ressaltam que a manutenção desse cenário positivo depende da continuidade e aprimoramento de políticas públicas intersetoriais. A segurança alimentar e nutricional, definida como o acesso regular e suficiente a alimentos saudáveis e de qualidade, é garantida a 77% da população, o menor índice da série histórica. No entanto, o combate à fome exige atenção contínua.
A saída do Mapa da Fome, ocorrida pela segunda vez, é fruto de uma forte articulação entre diversas políticas públicas, que precisam ser mantidas e aprimoradas, segundo Lucas de Almeida Moura, pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Combate à Fome. Ele enfatiza que o combate à insegurança alimentar vai além da oferta de alimentos, englobando a garantia de renda mínima, educação, saneamento básico, segurança pública e emprego.
Um estudo recente, liderado por Moura, introduziu o Índice Multidimensional de Insegurança Alimentar (MUFII), que avalia a fome com base em 12 indicadores de Desenvolvimento Sustentável. Os resultados, que abrangeram o período de 2018 a 2022, mostraram uma piora no cenário nacional em 2022, com os estados do Norte e Nordeste apresentando os maiores índices de insegurança alimentar multidimensional.
Valéria Burity, secretária Extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome, reafirma o compromisso do governo em garantir o direito à alimentação adequada e saudável para todos. O Plano Brasil sem Fome tem sido fundamental, articulando políticas econômicas e de proteção social, fomentando a agricultura familiar, reajustando a alimentação escolar e apoiando cozinhas comunitárias.
A professora Semíramis Domene, da Unifesp e diretora do Instituto Fome Zero, aponta três pilares essenciais para a redução da fome: a diminuição da desigualdade social através de políticas de emprego e renda, o fortalecimento das políticas de proteção social como o Bolsa Família e o SUS, e o incentivo à produção de alimentos, especialmente da agricultura familiar, por meio de programas como o PAA.
Daniel Duque, economista da FGV Ibre, destaca o papel crucial do Bolsa Família no aumento do poder de compra das famílias. A desaceleração dos preços dos alimentos a partir de 2023 e a melhora no mercado de trabalho também contribuíram significativamente para o avanço. Para que o Brasil se mantenha fora do Mapa da Fome, a manutenção de um mercado de trabalho favorável e políticas públicas consistentes são essenciais.

