Especialistas em relações internacionais alertam que uma hipotética invasão militar dos Estados Unidos à Venezuela e a remoção de seu presidente, Nicolás Maduro, representam um grave precedente com potencial de desestabilizar toda a América Latina. Segundo analistas ouvidos pela Agência Brasil, tal ação violaria princípios fundamentais do direito internacional e da Carta das Nações Unidas, configurando um ataque à soberania de uma nação e desrespeitando o direito à autodeterminação dos povos.
Williams Gonçalves, professor titular aposentado de relações internacionais da Uerj e pesquisador do INCT-INEU, expressou preocupação com a possibilidade de que outros países da região fiquem sujeitos à intervenção americana, dependendo dos interesses políticos e corporativos dos EUA. “Todo o nosso subcontinente está, portanto, entregue à vontade, ao arbítrio do senhor Donald Trump”, afirmou Gonçalves, criticando a postura de líderes regionais que, segundo ele, poderiam aceitar tal intervenção, o que seria uma “traição” aos ideais de independência e autonomia.
Gonçalves ressaltou que a aceitação de tal intervenção na Venezuela poderia encorajar ações arbitrárias futuras contra outros países, como o Brasil. Ele comparou a retórica utilizada com o imperialismo e colonialismo do século XIX, e defendeu uma condenação veemente por parte de todos os chefes de Estado e das forças militares da região, que, em sua visão, deveriam se posicionar contra qualquer tipo de intervenção estrangeira.
Antonio Jorge Ramalho da Rocha, professor de relações internacionais da UnB, compartilhou a visão de que Donald Trump demonstra pouco compromisso com as normas do direito internacional, priorizando a força e interesses de curto prazo, o que torna o cenário global mais perigoso e imprevisível. Ele alertou que a possibilidade de intervenção na Venezuela abre precedentes para que outros países sul-americanos, incluindo Brasil, Colômbia e Peru, possam ser alvos de ações similares.
O especialista também apontou que tais ações podem exacerbar divisões internas nas sociedades, facilitando a prevalência de interesses externos em detrimento dos locais. Há uma sinalização de preferências por determinados governos e de interferência em processos eleitorais na região, com Colômbia e Brasil sendo mencionados como alvos potenciais. Rocha enfatizou a necessidade de defender o multilateralismo e fortalecer o papel das Nações Unidas, apesar de suas limitações atuais.
As consequências, segundo Rocha, seriam graves e duradouras, podendo levar a mobilizações militares na região e a um cenário de instabilidade comparável a conflitos históricos. Embora reconheça as críticas à gestão do governo venezuelano e sua política econômica, o professor reiterou que a soberania do país e a inviolabilidade de suas normas internacionais devem ser respeitadas.

