Em Águas Lindas de Goiás, a Escola Municipal Domingos Simões, que um dia serviu como curral, tornou-se palco de um dia cívico carregado de emoção. Eleitores com histórias de vida marcadas pela superação e pela importância da educação compareceram às urnas, muitos com lembranças profundas do local que moldou seus trajetos.
Pedro Pereira, 56 anos, foi um dos primeiros a chegar, demonstrando a importância da votação em sua vida. Porteiro em Brasília, a 50 quilômetros de distância, ele interrompeu os estudos no quarto ano para trabalhar na roça e, posteriormente, buscar novas oportunidades no Centro-Oeste. Vender uma cabra para comprar a passagem para a capital do país simboliza a determinação de sua jornada. “Pisar numa escola mexe demais comigo”, confessou, orgulhoso de ter incentivado seus seis filhos a estudar.
A história da escola remonta à década de 1990, quando a psicopedagoga Maria do Socorro Pereira, então professora, transformou o antigo curral de uma fazenda em um local de aprendizado para 60 crianças de trabalhadores rurais. Com estrutura improvisada, incluindo contêineres e a escavação de uma cisterna, a unidade de ensino cresceu e hoje atende 1.350 alunos. Inicialmente batizada de Ayrton Senna da Silva, a escola teve seu nome alterado para Domingos Simões, abrangendo o ensino infantil e fundamental, enquanto o ensino médio mantém o nome do ídolo.
A comunidade desempenhou um papel crucial na consolidação da escola. “A existência da escola é resultado da luta da comunidade”, afirmou Maria do Socorro, destacando o amor e a dedicação ao local. A escola tornou-se uma referência, com discussões sobre participação social e política, apesar das dificuldades de infraestrutura.
Divino Evangelista dos Santos, 53 anos, agricultor que também interrompeu os estudos no quarto ano, expressou orgulho por nenhum de seus 11 filhos ter desistido do caminho educacional. Dorival Batista, 62 anos, pedreiro, compartilha o sonho de uma aposentadoria tranquila.
Para Géssica Matos, 33 anos, camareira de hospital, votar na escola onde estudou representa a esperança de um futuro melhor para seu filho de nove meses. Ela, que trabalha em Brasília e enfrenta longos deslocamentos diários, ressalta a emoção de retornar ao local que “cresceram os nossos sonhos”. Seu marido, Jeremias Azevedo, 30 anos, marceneiro, compartilha o mesmo sentimento.
O advogado Adenilson dos Santos Filho, 36 anos, relembrou seu primeiro dia na escola e a insistência das professoras em incentivá-lo a estudar, mesmo que inicialmente fosse pela merenda. Graças ao Prouni, ele pôde cursar o ensino superior e hoje vê a escola como uma referência fundamental. Adriano Silva, 20 anos, recém-formado pela escola e cursando gestão pública, sentiu nostalgia ao votar no local.
Lídia da Conceição, 31 anos, monitora para alunos com neurodivergência e estudante de pedagogia, expressou a felicidade em trabalhar e o desejo de se tornar professora na mesma instituição. A diretora Zélia Vaz, 58 anos, enfatizou o papel da escola em atender famílias em vulnerabilidade social e a gratificação em ver ex-alunos retornando como cidadãos no exercício do voto, reforçando que o ambiente escolar amplia a compreensão sobre a importância de cada voto.

