A crescente representação de partidos conservadores no Congresso Nacional e em governos estaduais sinaliza uma potencial mudança na agenda legislativa a partir de 2027. Temas como segurança pública, valores familiares e questões de costumes tendem a ganhar mais destaque nas discussões políticas, segundo Jeferson Ramos dos Santos, economista e doutor em ciência política pela Universidade de Brasília (UnB).
O professor destaca que as campanhas eleitorais recentes evidenciaram a força de pautas como segurança pública, custo de vida e a defesa de valores familiares. Essas temáticas se consolidaram como prioritárias nas regiões onde candidatos conservadores obtiveram vitórias para senadores, deputados estaduais e federais, e governadores. Ramos dos Santos observou que, embora essas questões tenham ressoado junto ao eleitorado, elas não foram abordadas de maneira satisfatória pelo governo federal.
Em relação à crise recente envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF), o especialista avalia que o impacto eleitoral direto foi limitado. “O STF não vai às urnas”, explicou, indicando que, apesar da repercussão midiática e do abalo na imagem da Corte, a questão não foi um fator determinante na decisão de voto da maioria dos eleitores. Contudo, o professor projeta que o STF poderá se tornar alvo de debates intensos no Senado Federal, especialmente com a nova configuração mais conservadora do parlamento. Alterações no desenho institucional do Supremo, no poder individual dos ministros e até mesmo a possibilidade de limitação de mandatos são cenários que podem surgir nos próximos quatro anos.
A pauta trabalhista, que neste ano tem como ponto central o fim da escala 6×1 – com votação prevista para esta semana –, também pode ter seu andamento e o teor das propostas afetados pela nova composição do Congresso. Ramos dos Santos sugere que a incerteza política pode levar a uma postergação na análise de projetos, enquanto os diferentes blocos e lideranças parlamentares definem suas posições. “O quadro político mudou sensivelmente”, afirmou.
Olhando para a disputa presidencial, o professor ressalta que o cenário permanece acirrado, com uma diferença de apenas 1,87 ponto percentual entre os candidatos Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP) no primeiro turno. Com um número recorde de abstenções, milhões de eleitores ainda não definiram seu voto, o que mantém a campanha aberta para o segundo turno em 25 de outubro. O resultado presidencial, prevê o especialista, terá influência direta na agenda legislativa a partir de 2027. Uma vitória mais conservadora pode direcionar o foco para temas de segurança e valores, em detrimento de pautas trabalhistas, ou intensificar ainda mais a tendência à direita na formulação das políticas públicas.

