Mais de duas décadas após o fim de suas carreiras nos gramados, ex-atletas que desbravaram o futebol feminino no Brasil continuam a moldar o futuro do esporte. Márcia Honório da Silva, conhecida como Marcinha, é um exemplo de dedicação. Após cerca de 20 anos como jogadora, ela se voltou para as categorias de base do futsal, revelando talentos como Nonato e Rodrigo Nestor.
Atualmente, Marcinha coordena equipes de futsal infantil em Caieiras (SP), onde uma de suas ex-alunas, Matheus Bidu, hoje atua como lateral-esquerdo no Corinthians. Mesmo com a predominância masculina nas equipes, ela incentiva a participação de meninas, como uma jovem de sete anos que joga entre os meninos no sub-7.
Marcinha integrou a primeira seleção brasileira feminina, que conquistou o terceiro lugar no Torneio Experimental da Fifa em 1988, na China. Este evento foi precursor da primeira Copa do Mundo Feminina, realizada no mesmo local três anos depois. “Eu vivi o começo de tudo, quando não tínhamos nada, além da vontade”, relembra Marcinha, destacando que, apesar das estruturas atuais, a essência do campeão – coração, respeito e disciplina – permanece a mesma.
Um reconhecimento histórico está próximo de se concretizar com o Projeto de Lei 1315/2026, conhecido como Lei Geral da Copa de 2027. A proposta prevê uma indenização de R$ 500 mil para atletas das seleções de 1988 e 1991, em uma iniciativa inspirada na homenagem aos campeões do futebol masculino de 1958, 1962 e 1970. “Trata-se de resgatar uma dignidade que foi negada por décadas”, afirma Marcinha, enfatizando a importância do reconhecimento, tanto financeiro quanto histórico.
Outra pioneira, Rosilane Camargo Motta, a Fanta, ex-lateral-esquerda da seleção de 1988 e presente em três Copas do Mundo, dedica-se a ensinar futebol para meninas no Rio de Janeiro. Ela compartilha valores como disciplina e persistência, lembrando que a modalidade já foi proibida para mulheres entre 1941 e 1979. “Acredito que a luta nunca foi em vão. Acredito também que a reparação é um legado deixado para nova geração”, declara Fanta.
Fanta também atua em projetos sociais que oferecem aulas gratuitas de futebol feminino, ao lado de Marisa, ex-zagueira e capitã da seleção de 1988. A expectativa para a Copa do Mundo de 2027 no Brasil é alta. “A importância é que só de ser no Brasil é uma grande vitória”, comenta Fanta. Marcinha complementa, esperando que o Mundial impulsione o profissionalismo, o investimento na base e a valorização das atletas femininas, com estádios lotados e um evento que demonstre a capacidade do país em organizar uma competição de excelência.

