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    Esporte

    Torcedor congolês “incorpora” Lumumba na Copa e evoca luta anticolonial

    RedaçãoPor Redação24 de junho de 2026
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    Em meio à atmosfera vibrante da Copa do Mundo de 2026, uma figura singular tem chamado a atenção nas arquibancadas: Michel Nkuka Mboladinga, um torcedor congolês que presta uma homenagem silenciosa, mas poderosa, a Patrice Lumumba, ex-primeiro-ministro do Congo e um dos maiores símbolos da luta anticolonial na África.

    Mboladinga adota a pose da icônica estátua de Lumumba, erguendo a mão em um gesto de permanência e resistência, replicando a imagem presente na capital congolesa, Kinshasa. Sua performance em solo norte-americano ressoa com a história de um continente que, em 2026, celebra sua maior participação na história do torneio, com dez seleções africanas competindo.

    O torcedor, que se autodenomina “estátua viva”, esteve presente no jogo entre a República Democrática do Congo e a Colômbia, em Guadalajara, no México. Uma tentativa anterior de Mboladinga de viajar para os Estados Unidos foi impedida devido a restrições sanitárias relacionadas à epidemia de ebola que afeta seu país, forçando seu retorno a Kinshasa.

    Mesmo sem poder acompanhar as próximas partidas dos “Leopardos”, como é conhecida a seleção congolesa, Mboladinga já transmitiu sua mensagem. Sua performance é vista por especialistas como uma forma de rememorar o legado de Lumumba e simbolizar a insurgência dos povos africanos contra as opressões históricas.

    Maria do Carmo Rebouças, coordenadora do Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo da UFRB, destaca que a trajetória de Lumumba representa a busca por autodeterminação, soberania e controle sobre os próprios recursos e futuro. “A performance Lumumba Vive é um gesto simples que carrega todo o continente”, avalia Rebouças, explicando a admiração que o torcedor conquistou.

    Segundo a pesquisadora, Mboladinga consegue transcender o esporte, transformando o futebol em um palco para a reflexão sobre o passado colonial e a necessidade de manter viva a memória das lutas anticoloniais. Esse ato contrasta com tentativas de silenciar tais narrativas, como o episódio em que a FIFA vetou uma camisa da seleção do Haiti por referência à sua independência.

    Felipe Paiva, professor de História da África da UFF, acrescenta que a homenagem de Mboladinga se estende a outros líderes africanos que seguiram os passos de Lumumba, como Thomas Sankara e Amílcar Cabral, cujas lutas também foram marcadas por sacrifícios e assassinatos, lembrando que as independências africanas foram conquistadas “com muito sangue, suor e lágrimas”.

    Em um momento específico da partida contra a Colômbia, Mboladinga fez um gesto sutil, colocando um dedo na têmpora e a mão na boca, simbolizando o silêncio internacional diante das guerras e da exploração de recursos naturais no Congo. Este mesmo gesto tem sido utilizado por atletas da diáspora africana para chamar a atenção para a crise humanitária em seu país, uma “guerra esquecida” marcada por conflitos prolongados e descaso global.

    Patrice Lumumba, o primeiro líder democraticamente eleito do Congo após a independência da Bélgica em 1960, tornou-se um ícone do pan-africanismo por defender que as riquezas naturais do país fossem revertidas em benefício do povo congolês. Sua visão contrária à exploração estrangeira culminou em seu assassinato, com suspeita de envolvimento de autoridades belgas e americanas, em meio às tensões da Guerra Fria.

    A história de Lumumba e a luta pela soberania congolesa permanecem atuais, com o país ainda enfrentando conflitos internos e crises humanitárias, como o surto de ebola que impactou a participação da seleção na Copa. A Bélgica, em 2022, reconheceu sua “responsabilidade moral” no assassinato de Lumumba e devolveu pertences do líder, um passo simbólico em direção à reparação histórica.

    “Para se responsabilizar, a Bélgica poderia demonstrar mais interesse na situação e liderar uma agenda internacional que busque uma solução de paz e desenvolvimento”, sugere Nuno Carlos de Fragoso Vidal, professor de História da África da UFRJ. Ele também argumenta que países como Brasil e Estados Unidos, formados em parte pela diáspora africana, possuem uma obrigação moral de pautar essa agenda de soluções para os problemas do continente, especialmente em casos tão dramáticos como o do Congo.

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