O governo do presidente argentino Javier Milei enfrentou uma forte oposição e foi forçado a recuar em seu plano de expandir a venda de terras do país para investidores estrangeiros. A controvérsia, apelidada de “estrangeirização das terras argentinas”, ganhou força com mobilizações que reuniram governadores de diferentes espectros políticos, artistas renomados e até mesmo o zagueiro da seleção argentina, Lisandro Martínez.
A memória da Guerra das Malvinas, um conflito histórico entre Argentina e Reino Unido nos anos 1980 pelo controle do arquipélago, emergiu como um catalisador para a resistência popular. A faixa “as Malvinas são argentinas”, ostentada pela seleção em um momento crucial, ressoou profundamente e inflamou o debate sobre soberania nacional e a venda de território.
Diante da pressão social e da falta de apoio no Senado, o governo retirou o projeto de votação. No entanto, outra proposta que permite a venda de áreas protegidas afetadas por incêndios florestais permaneceu em pauta. O texto original sobre terras estrangeiras visava eliminar completamente os limites para a aquisição, mas a versão que seria votada propunha ampliar o limite de 15% para 25% do total de terras por província. Uma tentativa anterior de flexibilizar essa regra via decreto presidencial em dezembro de 2023 foi suspensa pela Justiça.
O ambientalista Hernán Hougassian criticou a proposta sobre áreas afetadas por incêndios, alertando que ela poderia incentivar proprietários a incendiar florestas para posterior desenvolvimento imobiliário especulativo, contornando a lei de 2020 que proíbe a venda dessas áreas por 30 anos.
Especialistas apontam que a formação de uma “grande maioria politicamente transversal” gerou pressão significativa sobre o Senado, inclusive causando dissidências dentro do próprio governo. A pressão dos governadores provinciais, que se sentiram prejudicados pela medida, foi decisiva para que a discussão fosse federalizada e o Senado não avançasse com a proposta. O governo Milei alega estar “reavaliando” a medida, sem indicar um cronograma para seu eventual retorno.

