A persistência de conflitos armados no Leste da República Democrática do Congo (RDC) e a diminuição da cooperação internacional em saúde têm criado um cenário propício para a disseminação do atual surto de ebola no continente africano. A doença volta a ser uma preocupação em meio à escassez de recursos humanos qualificados na área sanitária da região.
A província de Ituri, localizada no Nordeste da RDC, é o epicentro da epidemia, respondendo por 93% dos 676 casos confirmados no país. As províncias de Kivu do Norte e Kivu do Sul, também severamente afetadas por décadas de guerra, registram os demais casos.
A região de Ituri, a quase dois mil quilômetros da capital Kinshasa, é palco de disputas por aproximadamente 100 grupos paramilitares que buscam controle sobre as atividades de mineração. Estima-se que milhões de pessoas tenham sido deslocadas em decorrência dos conflitos locais.
“O surto está se desenvolvendo em um contexto humanitário complexo e afetado por conflitos, caracterizado por populações altamente móveis e frequentemente deslocadas”, apontou um informe da Organização Mundial da Saúde (OMS), que ressalta a rápida evolução da epidemia.
Nuno Carlos de Fragoso Vidal, professor de história da África na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que a região afetada é marginalizada e sob influência de Ruanda, país que, segundo ele, financia o principal grupo paramilitar local, o M23. O especialista descreve o conflito como latente, responsável por dezenas de milhares de mortos ao longo dos anos, e uma zona de exploração de recursos naturais, como o coltan, que são exportados via Ruanda.
O acesso das equipes de saúde a áreas controladas por grupos paramilitares hostis é dificultado, segundo Vidal. Ele também menciona a falta de progresso em acordos de paz anteriores, atribuindo a situação a ambições regionais e à proteção internacional conferida a líderes como o presidente ruandês Paul Kagame, o que, segundo ele, permite a apropriação indevida de recursos congoleses.
Além da RDC, o surto também afeta Uganda, com a OMS afirmando que a transmissão na Uganda está epidemiologicamente ligada à origem na RDC.
A redução da cooperação internacional na saúde nos últimos anos, incluindo a saída dos Estados Unidos da OMS – que era o seu maior doador –, é apontada por especialistas como um fator que agrava o surto. A ajuda financeira dos EUA para a RDC sofreu uma queda drástica, saindo de US$ 1,41 bilhão em 2024 para US$ 0,14 bilhão em 2026, como parte de uma política de redução de auxílio internacional.
Apesar da redução geral, os EUA se apresentam como o principal doador para o combate ao ebola, com cerca de US$ 338 milhões em assistência humanitária para RDC, Sudão do Sul e Uganda.
Rômulo Paes de Sousa, presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), critica a postura dos EUA em enfraquecer organizações multilaterais em favor de acordos bilaterais, gerando incertezas no combate à epidemia. Ele argumenta que essa mudança dificulta o monitoramento da aplicação de recursos e contamina as negociações com interesses comerciais, especialmente em relação a minerais estratégicos.
Natalia Fingermann, coordenadora do Núcleo de Estudos e Negócios Africanos (Nenaf) da ESPM, reforça que a mudança nos canais de cooperação internacional dificulta a fiscalização dos fundos, exemplificando com a ausência de transferências anunciadas pelos EUA para o CDC África.
A OMS relatou recentemente a falta de insumos para testes de detecção do ebola em três laboratórios na RDC.
O aumento dos gastos com defesa por potências europeias, como Reino Unido e França, em detrimento da ajuda internacional, também é destacado por Fingermann como um fator que dificulta a resposta à emergência sanitária. A União Europeia e outros países concordaram em elevar seus gastos com defesa, aumentando em 20% o investimento total comparado a 2024.
Para combater o ebola, a União Europeia anunciou € 15 milhões em assistência humanitária adicional para o Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças (CDC da África).
A União Africana e a OMS lançaram um plano de contenção que solicita US$ 517 milhões para os próximos seis meses. O CDC África aponta a escassez de profissionais qualificados – como epidemiologistas e especialistas de laboratório – como um dos principais desafios para o controle do surto.
As prioridades incluem a expansão da capacidade de testes diagnósticos rápidos e a melhoria do acesso humanitário e da coordenação civil-militar para garantir a segurança das equipes de resposta.
Nuno Vidal lamenta que surtos de ebola confinados à África não gerem o mesmo nível de alarme internacional que poderiam causar se se espalhassem para fora do continente, diminuindo o interesse e a urgência na resposta global.
Dados da OMS indicam que, até 10 de junho, a RDC confirmou 676 casos de ebola, com 136 mortes. Em Uganda, até 11 de junho, foram registrados 19 casos confirmados e dois óbitos, com a OMS notando a ausência de novos casos nos últimos seis dias. Ao todo, 37 pessoas se recuperaram da doença nos dois países.

