O Brasil celebrou recentemente um marco histórico em sua trajetória paralímpica, reconhecendo o legado deixado pelos pioneiros que conquistaram a primeira medalha do país em Jogos Paralímpicos. A conquista, uma prata no lawn bowls (modalidade extinta similar à bocha), ocorreu há 50 anos, em 1976, nos Jogos de Toronto, Canadá, pelas mãos de Robson Sampaio de Almeida e Luiz Carlos da Costa. Este feito abriu caminho para que o Brasil se tornasse uma potência no esporte adaptado, encerrando a Paralimpíada de Paris 2024 entre as cinco melhores nações, com um total impressionante de 462 pódios acumulados.
Uma homenagem simbólica reuniu familiares e representantes do esporte paralímpico no Centro de Treinamento Paralímpico, em São Paulo, para relembrar a importância daquela conquista pioneira. Noêmia Almeida, sobrinha de Robson Sampaio de Almeida, destacou a importância de resgatar essa história. “Se hoje temos tudo isso [no esporte paralímpico], com televisão, entrevistas, esse momento de comemoração, é porque alguém lá no passado lutou para que isso acontecesse”, afirmou à EBC.
Robson Sampaio de Almeida, que se tornou paraplégico após um acidente de trabalho, fundou o Clube do Otimismo no Rio de Janeiro em 1958. Utilizando a indenização do acidente, ele dedicou-se a apoiar pessoas com deficiência sem recursos para reabilitação e para a prática esportiva. “Naquela ocasião, não tinha recursos como hoje. O paradesporto não era uma política pública, então, tinha que sair batendo de porta em porta”, relatou Noêmia, lembrando da persistência de seu tio/pai em buscar apoio para uniformes e passagens para que atletas representassem o Brasil.
Luiz Carlos da Costa, conhecido como “Curtinho” e hoje com 79 anos, foi um dos beneficiados pelo Clube do Otimismo e desenvolveu uma forte amizade com Robson. Juntos, eles participaram dos Jogos de Toronto, inicialmente competindo no basquete em cadeira de rodas, modalidade em que Robson foi um dos primeiros cestinhas brasileiros. Posteriormente, foram convidados a competir no lawn bowls. “Eles sempre formaram essa dupla dinâmica no esporte”, relembrou Paulo Robson de Almeida, outro sobrinho de Robson, que também destacou o papel de Luiz Carlos no apoio técnico para conserto de cadeiras de rodas.
A trajetória brasileira no esporte paralímpico evoluiu significativamente desde 1976. A criação do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) em 1995 e sua posterior inclusão em leis de incentivo ao esporte, como a Lei Agnelo Piva, foram cruciais para o desenvolvimento e financiamento do paradesporto. A construção do Centro de Treinamento Paralímpico em 2016, um legado dos Jogos Rio 2016, consolidou-se como um importante polo de formação e desenvolvimento de atletas, oferecendo iniciação gratuita em modalidades adaptadas para jovens com deficiência.
A luta de Robson e Luiz Carlos, marcada pela superação de barreiras e pela busca de reconhecimento e oportunidades, ecoa até hoje. “Ele lutava para as empresas admitirem [pessoas com deficiência], que tivessem uma política de acreditar que aquela pessoa era capaz de trabalhar. A gente teve nele o exemplo desse espírito, e o esporte foi a consequência. O que estamos comemorando é a realização de um sonho. A luta dele é a de todos nós”, concluiu Noêmia, reforçando o espírito de perseverança que impulsionou o esporte paralímpico brasileiro.

