A designação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos é vista como ineficaz para o Brasil no momento atual. A afirmação é de Lincoln Gakiya, promotor de Justiça do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo.
Gakiya, que tem mais de duas décadas de experiência investigando o PCC, expressou ceticismo sobre os benefícios práticos da medida. Ele citou exemplos de outros países, como o México e a Venezuela, onde a classificação de grupos criminosos como terroristas não resultou na diminuição de seu poder, inclusive dentro dos próprios Estados Unidos. O promotor sugere que a politização do tema pode estar influenciando essa decisão, mas questiona o impacto pragmático para o Brasil.
Em entrevista ao programa Alô Alô Brasil, da Rádio Nacional, Gakiya alertou que a nova classificação americana pode, na verdade, prejudicar a cooperação internacional existente entre Brasil e EUA no combate ao crime organizado, especialmente no tráfico de drogas. Ele explicou que a intervenção de agências como a CIA e militares dos EUA, além do FBI e DEA, pode complicar a colaboração policial e de inteligência.
A decisão dos EUA, anunciada na noite de quinta-feira (28), muda o status das facções brasileiras de organizações de crime organizado para terroristas. Essa distinção, segundo a ONU, geralmente requer uma motivação ideológica ou política, características que não se aplicam ao CV e ao PCC. A nova abordagem americana abre portas para possíveis ações em território brasileiro, como sanções econômicas, pressão governamental e até mesmo intervenções militares, levantando preocupações sobre a soberania nacional.
Apesar de a legislação americana permitir ações militares secretas fora de seu território sem a anuência do país anfitrião, Gakiya considera remota a possibilidade de uma intervenção militar direta dos EUA no Brasil. Ele ponderou que acordos comerciais e a força do Estado brasileiro tornam essa hipótese improvável, diferentemente de situações em outros países. O promotor defendeu, em vez disso, o fortalecimento de acordos de cooperação e a criação de equipes conjuntas de investigação e forças-tarefas para combater as facções, com apoio financeiro, tecnológico e de treinamento por parte dos EUA.

