Mulheres que desbravaram o futebol feminino no Brasil, enfrentando uma proibição que durou décadas, foram homenageadas no programa Sem Censura, da TV Brasil. A atração recebeu três ex-atletas que marcaram seus nomes na história do esporte, que só foi regularizado em 1980, após ser vetado por Getúlio Vargas nos anos 1940.
Marilza Martins da Silva, a Pelezinha, Marisa Pires, a Caju (primeira capitã da seleção brasileira feminina), e Márcia Matos, a Russa (participante do Mundialito e bicampeã sul-americana), relembraram os primórdios da modalidade, com destaque para o Esporte Clube Radar, fundado em Copacabana, Rio de Janeiro. O clube, sob a gestão de Eurico Lyra, abraçou o futebol feminino em 1981 e serviu de base para a seleção brasileira nos anos 80.
Pelezinha, cujo apelido foi inspirado pela leveza com que Eurico a via jogar na areia, compartilhou a emoção de representar o Brasil na China em 1988. “É uma emoção você ir pra a China”, disse, revelando que o sonho era participar do primeiro mundial feminino, algo que parecia distante em uma época onde o esporte ainda não era oficialmente reconhecido.
Marisa Pires, a Caju, comentou sobre a percepção de estádios lotados nos dias atuais, contrastando com o passado. Ela afirmou que, desde o primeiro Campeonato Sul-Americano em 1995, os jogos já atraíam grande público. “Os estádios sempre foram lotados. Todos queriam ir assistir aos jogos, para ver se as mulheres jogavam bem. Os homens se surpreenderam e diziam que futebol também é para mulher”, relatou.
A capitã da seleção no primeiro mundial também abordou a remuneração da época, que consistia em “bicho” por partida, sem garantia de pagamento em caso de derrota. “A nossa persistência, o amor, a paixão é que levaram o futebol ao patamar em que está hoje”, acrescentou.
A recente lei sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que destina R$ 500 mil às atletas pioneiras que representaram o Brasil entre 1988 e 1991, foi um dos pontos altos da conversa. “Ele veio tarde, mas veio muito bem. Só Deus sabe a emoção que a gente está tendo”, expressou Caju, destacando que a premiação, que também beneficiará familiares de atletas falecidas, representa uma conquista esperada por 38 anos.
Pelezinha, aos 62 anos, agradeceu pela força divina para realizar parte dos sonhos. Caju, aos 59, celebrou a vitória como um impulso para o futuro, permitindo descanso e a realização de planos. Márcia Matos, a Russa, ressaltou a importância de Marileia dos Santos, a Michel Jackson, do Ministério do Esporte, que atuou incansavelmente por oito anos para viabilizar a lei e garantir o benefício às pioneiras.

