Narrativa construída por veículos alinhados ao Planalto busca transformar crise diplomática com Washington em “ato de soberania” para conter queda de popularidade do presidente.
A chamada grande imprensa brasileira, notoriamente simpática ao governo Lula, passou a veicular nos últimos dias uma nova narrativa em defesa do presidente. Análises, reportagens e colunas começaram a retratar o embate com os Estados Unidos — desencadeado pela imposição de uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros pelo presidente Donald Trump — como um episódio positivo para o Planalto, em vez de um risco econômico e diplomático.
Nos textos, Lula é descrito como um “líder firme” e um “defensor da soberania nacional” diante do que classificam como pressões injustas dos norte-americanos. Essa narrativa contrasta com análises anteriores, inclusive dos mesmos veículos, que alertavam para os riscos econômicos do isolamento internacional e para o impacto negativo de um confronto com Washington sobre o comércio exterior brasileiro.
A ofensiva midiática coincide com a crise bilateral em curso, que já resultou na substituição do adido militar brasileiro em Washington e no movimento de setores empresariais para tentar conter os danos nas relações com os Estados Unidos. Enquanto isso, autoridades norte-americanas endurecem o tom sobre possíveis sanções e a retração de investimentos no Brasil caso a situação não seja revertida.
Ainda assim, colunistas e editoriais de jornais e sites alinhados ao Planalto intensificaram a cobertura com um objetivo claro: reposicionar a imagem de Lula, desgastada nos últimos meses por sucessivos indicadores de queda de popularidade, como um estadista que enfrenta uma potência mundial em nome dos interesses brasileiros.
A tentativa de transformar um conflito diplomático em capital político para o presidente revela não só o alinhamento ideológico de parte da imprensa ao Planalto, mas também um descompromisso com os impactos concretos dessa crise sobre a economia e as relações exteriores do país. Ao retratar o embate como “defesa do Brasil”, esses veículos acabam por mascarar os riscos reais do isolamento internacional em um momento já delicado para a economia nacional.

